quinta-feira, 1 de maio de 2008

De Buenos Aires à Patagónia; Da Patagónia à Quebrada de Humahuaca

De Buenos Aires à Patagónia. Da Patagónia à Quebrada de Humahuaca. Para se conhecer a Argentina tem de se ir de uma ponta à outra. Encontram-se paisagens e pessoas tão diferentes que não me deixa falar de uma só Argentina. O Tango ouve-se em Buenos Aires. O gelo corta a paisagem a sul, na Patagónia e, os incas deixaram os descendentes nas montanhas do Norte. Nenhum destes estilos se cruza em lugar algum. Tem de se percorrer o país de lés a lés para se entender o que é argentina para além da capital.


Se alguém me perguntasse onde deveria ficar em Buenos Aires não hesitaria em aconselhar o Bairro de San Telmo, entre La Boca e a Avenida 9 de Julho. Daqui pode ir-se a pé para todos os sítios interessantes da cidade. Este bairro de casas de início de século foi, em tempos, onde os artistas viviam, onde as casas de Tango se amontoavam e, onde a história das ruas esconde muitos amores. Tem pequenos restaurantes acolhedores, lojas de antiguidades e artesãos nas ruas. Varandas que dão para os jardins e onde se pode ver dançar o Tango. O ar é vermelho e preto. Entre a paixão e a dor. Nada é neutro. Ou se sente tudo ou não se sente. Os vinhos argentinos são quentes e aveludados. Tal como o ambiente que se vive na maioria dos locais desta capital da América Latina. A influência de um Paris de outros tempos é tão marcada que às vezes, esperava ouvir falar francês. Parece que a Evita Péron ainda vive por ali, ao virar de uma esquina qualquer ou que, Gardel está num clube qualquer e, que a sedução da cidade se mistura com a sedução de cada um. Vêem-se diferenças acentuadas entre as zonas da cidade. Não é aconselhável ir para La Boca ao entardecer como fui, porque depois não existem táxis naquela zona. Actualmente é apenas a beleza do Caminhito e a procura de um bairro que já não é realmente como se espera. Ali situam-se os bairros mais pobres e um dos estádios mais emblemáticos. O futebol é levado muito a sério entre os rivais e por isso é melhor ter cuidado em dias de jogo.


É com um sabor aveludado que se deixa Buenos Aires para se ir para a Patagónia. Passa-se do calor do vermelho para o Pólo Sul frio, gélido e branco. O avião começa a sobrevoar montanhas geladas, para aterrar nas margens de um lago azul imaculado, alimentado pelo Glaciar de Perito Moreno. Fiquei em El Calafate, que fica a um passo da Terra do Fogo. A Terra do Fogo só vi do avião. El Calafate é ponto de partida para vários passeios, e daqui pode ir-se até ao Parque dos Glaciares, onde se situa um dos principais glaciares. O dia começa cedo e, prolonga-se para lá das 22 horas. Com um frio seco no ar, o sol é quente. Uma vila demasiado turística, preparada como se fosse de papel e se pudesse desmontar, como descreveu um Espanhol que conheci dias depois no Norte. Contudo a serenidade que o ar fresco deixa antever é uma qualidade a aproveitar em terras do Sul. E claro que a magnificência do Glaciar é imperdível. São 60 metros de gelo maciço que se estendem por 15 Kms. A viagem de barco deixa o corpo gelado pela proximidade daquele gelo. De um lado o sol e o calor, do outro o gelo, as nuvens e o frio. São contrastes que se admira demoradamente. Aqui não é a cultura nem as pessoas que surpreendem, mas sim a cor do dia, do vento e do gelo. E foi depois disto que subi para o Norte.


Património Mundial a Quebrada de Humahuaca é encantadora. Já não se ouve o Tango, nem se sente o gelo. No norte da Argentina, o dia é quente e, as noites muito frias, mesmo no verão. Fiquei em Tilcara que fica mesmo no meio desta quebrada andina, onde se podem visitar as ruínas da Pucará, a vila de Humamhuaca, a Paleta do Pintor em Purmamarca e as Salinas Grandes, pela Nacional 40. As gentes são simples e vivem do turismo e da agricultura. Afastadas das grandes cidades, apresentam-se de vestimentas coloridas com os bebes às costas atados por tecidos, peles muito queimadas pelo sol e de uma simpatia tímida. A beleza desta província começa em Salta, pequena cidade verde e vai até às Salinas Grandes, passando pelas várias vilas pré- hispânicas. Não sei bem descrever qual destes pontos gostei mais. Fiquei impressionada com as ruínas disfarçadas no meio da montanha para defender durante as invasões; com a beleza do pôr-do-sol a bater nas rochas; com as diferentes cores que a terra tem; com a altitude da nacional 40 e, como seria de esperar com o modus vivendis nas Salinas Grandes, onde a extensão de sal é até perder de vistas e os homens que ali trabalham estão todos cobertos de panos brancos com as mãos ressequidas de trabalhar no sal.


Se vivesse na Argentina era em Buenos Aires, pelo colorido em tons de vermelho, pela sonoridade e cultura e pela beleza, mas teria de voltar ao Norte para encontrar as pessoas e a beleza Natural. De Buenos Aires, a capital da luxúria à Patagónia, a capital da solidão. Da capital da solidão até à Quebrada de Humahuaca, a capital da terra.

1 comentário:

Ivanov Ivanovich disse...

Marina,

Mais um dos locais que quero visitar. Estás a surpreender-me!!!

Parabéns,

Um beijo,
Ivan