terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Um Marrocos por descobrir

Marrocos fica ali no virar da esquina para quem vai até África. A ideia que temos deste país é construída a partir de ver imagens das Medinas estreitas, escuras e repletas de vendedores de tudo e mais alguma coisa. Também tinha criado a imagem das mil e uma noites e das odaliscas a dançarem numa grande sala de mármore durante um jantar nas mesas baixas cheias de Tangines. Foi com estas imagens que parti rumo a Marrocos, aterrando no aeroporto de Tanger. Ainda cá decidi qual seria o percurso que iria fazer como forma de conhecer um pouco de todas as variações geográficas que este país nos oferece. Sim, porque ali podemos ir do deserto à neve com poucas horas de carro. Esperava algumas contrariedades quando percebi que iria estar a viajar durante o Ramadão, mas os imprevistos ultrapassaram as minhas expectativas.

Quando cheguei a Tanger fui para Tétouan nas montanhas de Rif. De Tanger vi apenas a garagem dos autocarros e o pequeno aeroporto, porque a primeira noite estava programada para as montanhas. A viagem foi terrível. O autocarro ia repleto de pessoas e parava em muitas localidades. No entanto, valeu a pena para chegar no pôr de sol e ver Tétouan na encosta da montanha com os azuis ainda mais coloridos pelo sol de tons laranja. Tétouan é um paraíso hippie. Tem uma praça e uma pequena Medina que se estende até um rio. Os restaurantes e hotéis ficam à volta desta pequena praça. À noite as luzes são essencialmente de velas e de um ou outro candeeiro e isso torna o ambiente especial. Apesar de ser uma terra pequena que facilmente se conhece é rodeada de uma beleza que convida a ficar-se sentada apenas a ouvir os ruídos das montanhas. Existe ainda o azul espantoso deste lugar que nos faz ter vontade de andar pelas ruelas a tirar fotografias a torto e a direito. Com saudade parti dali, onde perdi o lenço que comprara na Índia e que me acompanhou nas viagens desde então.

A partir de Tétouan enfrentei a difícil missão de fazer durante parte do dia e durante toda a noite a travessia até Erfoud. Jantei em Fes enquanto esperava pelo próximo autocarro. Devo salientar que os condutores de Marrocos são violentos a conduzir. Nem consegui dormir bem durante as viagens. Chegar a Erfoud às 5 da manhã foi quase um pesadelo. De uma terra bonita passei para uma terra feia e sem qualquer identidade. Achei um lugar pouco atractivo e esperei pelo o primeiro autocarro da manhã e rumei em direcção a Risadin. Chegar a Risadin também não foi animador, porque os hotéis estavam fechados por causa do Ramadão, como aliás aconteceu noutros locais que tentei visitar. Lá fui num Grande Taxi para o deserto de Erg Chebbi, onde fiquei num hotel lindíssimo sobre as dunas em Merzouga. Naquele lugar não se via viva alma, excepto uns camelos ao longe e uns tratadores. Estava um calor abrasador, mas ao fim do dia começou uma tempestade de areia acompanhada de trovoado e aconteceu o inesperado no deserto, porque começou a chover. Foi uma tempestade assustadora e nem consegui assistir nem ao pôr-do-sol nem ao nascer do dia, porque chovia torrencialmente. A minha passagem pelo deserto foi no mínimo sui generis. Por esse motivo rumei antecipadamente para as montanhas onde tencionava ficar nas Gargantas do Gorge. Pelo caminho continuaram os ventos forte e uma vez mais atravessei uma vez mais uma tempestade de areia. No entanto, o pior foi chegar a uma estrada cortada pela água que descia das montanhas, ter de dar uma volta para chegar a Tinerhri mesmo na hora em que a tempestade descia das montanhas. Abrigada num beiral, pensei que ia ficar debaixo das terras que desciam montanha abaixo. Tive medo. E aquela localidade estava fantasmagórica com trovoadas em todas as montanhas em redor. Foi impossível ir às Gargantas porque a estrada estava cortada pela água. No dia seguinte deixei Tinerhri para ir para Marrakesh e atravessar assim o Grande Atlas. Depois da tempestade vem a bonança e estava um sol fantástico para a viagem. Prometi voltar para ver o por do sol no deserto e ver as Gargantas.

A bela Marrakesh. De encantos vários, mas de todos a Praça central é a mais indescritível. É o maior legado de cultura falada que é Património da Humanidade. A Medina esconde tesouros e tudo ali é cor. No entanto, muito mais turístico do que qualquer outro lugar que tinha estado antes. Sem dúvida que é um lugar óptimo para se estar durante uns dias a ouvir o burburinho das pessoas, dos encantadores de serpentes e de todas as pessoas que fazem ali a sua vida. É preciso ter cuidado com os vendedores que não nos deixam em paz e que quase nos convencem a comprar o que não queremos, mas apesar disso os fins de tarde ali são relaxantes e de nos ajudar a equilibrar o bem-estar.

Dali até Essaouira são apenas 4 horas de viagem. Ali encontra-se um dos maiores legados Portugueses deixados em Marrocos. É uma vila piscatória linda. Muito ventosa, mas com uma classe diferente das terras por onde antes tinha pernoitado. As lojas e o artesanato são mais organizados e o mar é calmo. Uma das imagens mais majestosas que guardo dali são os rapazes a jogarem bola ao entardecer na praia. Com camisolas coloridas, possivelmente dos seus ídolos do futebol e o mar sempre calmo.

Estava perto do fim e o avião partia de Casablanca. Uma vez mais de autocarro. Uma vez mais tentei ficar em El-Jadida mas os hotéis estavam todos fechados. Em Casablanca só se consegue vislumbrar o encanto de outrora. Dos dourados anos cinquenta que hão-de ter existido, porque actualmente a cidade parece um fantasma erguido nas costas do Atlântico, com belos resorts para marroquinos ricos mesmo ali ao lado dos bairros de lata. Uma cidade cheia de contradições e de opostos.

Marrocos, terra de cor e de contrastes. De ricos e pobres que não se misturam. De belas terras e das aldeias abandonadas no tempo. Em que os homens não falavam comigo com simpatia e as mulheres nem olhavam para mim. Terra do chá verde e dos Tangines. De pessoas pouco afáveis, mas de uma cultura rica em tradições. Com paisagens imensas, longínquas e tão diferentes. Fiquei com vontade de voltar ali, já ao virar da esquina e na entrada de África.